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Archive for novembro 2010

“Cidadão” Kane, não, obrigado

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Quem acompanha esse blog, me conhece, ou os dois, sabe muito bem da minha predileção especial por filmes antigos. Mas, não deu. Cidadão Kane, louvado por muitos como uma espécie de obra prima, para mim não passou de uma longa chatice.

Sim, sei que isso é uma espécie de heresia, mas não é culpa minha. O filme está longe de possuir uma grande carga dramática, aquele ar quase sobrenatural e majestoso de “E o vento levou…”. Também não tem grandes atuações, como “Um bonde chamado desejo”. E, ainda mais, não possui o poder e a intensidade bruta do clássico “Casablanca”.

Me agridam então, mas eu achei a história desinteressante. Percebi que realmente algumas das técnicas empregadas durante o filme, maquilagem, técnicas de corte e edição, foram realmente inovadoras.  Mas é só isso que faz um clássico, ainda mais um tão respeitado.

“Cidadão Kane” geralmente encabeça a maior parte das listas sobre filmes clássicos. Lembro que até mesmo o Woody Allen colocou ele como seu filme americano preferido (ele nunca compararia com o Bergman, evidentemente). Mas o velho Allan Koningsberg também não gostou de Casablanca, logo, temos nossas divergências também.

Desculpem-me então, se os ofendo. Simplesmente não rolou. E antes que me ataquem, eu entendi a história do homem que tinha tudo, mas que no final amou poucas coisas e nada o amou. Talvez se eu voltar uns 50 anos no tempo, eu gostasse mais desse filme. Só que hoje não deu.

Mas tentarei daqui uns meses/anos uma segunda tentativa. Afinal, se todo mundo fala tão bem, ele merece.

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Written by Dyeison Martins

30 de novembro de 2010 at 14:45

Publicado em Filmes

Final da Copa Sul Americana

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A Copa Sul Americana chega a sua final. Vamos admitir que é um torneio sem graça mesmo. Lembro que quando fui ver a lista da primeira fase da competição, não conhecia um único time que participava.  São vagas de mais para times de menos, no caso aqueles times perdidos da América do Sul, que só fazem número mesmo. Enquanto a Copa Libertadores começa lá pelas oitavas (quem cair antes é ruim mesmo), a Sul Americana começa, na melhor das hipóteses, nas quartas.

Agora, chegamos a final desse torneio, que da vaga a Copa Libertadores. Dois times de escolas tradicionais vão se enfrentar. Goiás, do Brasil, e Independiente, da Argentina. Respectivamente, o 19° colocado no Campeonato Brasileiro (já rebaixado) e o 17° do Apertura (mas longe do rebaixamento, devido ao seu bom desempenho no Clausura).

Afinal, é isso que são as competições sul-americanas? Tudo bem, o Independiente é o Rey de Copas, tem 7 Libertadores nas costas, 2 mundiais e 2 supercopas. Mesmo há 15 anos sem ir para uma final de torneio sulamericano, e há 8 sem vencer um campeonato argentino, tem camisa e tradição para sustentar um candidatura. Mas e o Goiás, que nunca venceu nada, e ainda por cima foi rebaixado? Merece mesmo ele estar na Libertadores do ano que vêm?

Os eliminados na semi-finais eram pouco melhores. A Liga de Quito, do Equador, venceu Libertadores e Sul-Americana recentemente. O Palmeiras é um gigante do Brasil, com quatro brasileiros, Libertadores e Mercosul.

Mas ok, que vença o melhor. Talvez essa vaga na Libertadores melhore o nível da Sul Americana. Porque essa competição consegue ser uma Copa Europa piorada.

Written by Dyeison Martins

26 de novembro de 2010 at 15:52

Publicado em Futebol

Ética, mala branca e a “entregada”

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Todo final de Campeonato Brasileiro é a mesma coisa: metade dos times ficam simplesmente cumprindo tabela no campeonato a partir da metade do segundo turno, enquanto a outra metade disputa o que quer que seja, desde título até fugir do rebaixamento. (Ninguém disputa vaga na Copa Sul Americana, ou tu vai ou não, geralmente a contra gosto). Ai começam as acusações de mala branca e os pedidos de entregar para outro time, dependendo da situação. Vamos analisar com calma cada um desses eventos.

Não vejo nada de errado na Mala Branca. Se um time tem condições financeiras para tal, porque não premiar os jogadores de um time se eles vencerem um rival direto? Pagar para o outro time perder é desonesto, é manipulação de resultados, e deve ser punido. Agora, um prêmio extra para vencer um adversário, não é nada demais.

Reclamar da mala branca me parece mais choro que qualquer outra coisa. E dai que o adversário está recebendo um incentivo, vá lá e vença ele, afinal, seu time tem um objetivo maior, o dele não (ou talvez fugir do rebaixamento, vá saber).

O tema polêmico sim é a entregada. Ela surge do fato de um dos times estar “morto” no campeonato, apenas esperando ele terminar, enquanto outro briga por alguma coisa, como fugir do rebaixamento, Libertadores ou título. Ai começa o apelo da torcida para “entregar” para o adversário desse. Obviamente é sempre desmentido por todos.

Na realidade eu não vejo tantos problemas assim nessa suposta entregada. Não acredito que aconteça, mas se acontecer, para mim é compreensível. Jogadores de futebol são em tese profissionais, que sempre buscam a vitória, até para melhorarem o seu currículo profissional. Só que sabemos que na vida real não é bem assim. Eles cansam de fazer corpo mole para derrubar companheiros e treinadores.

Então, porque não entregar para o bem do clube? Falo sério nisso. O jogador ainda é funcionário de um clube, e deve zelar pelo interesses do mesmo. E qual interesse que o Corinthians tem no Palmeiras na Libertadores? Por que raios o Fluminense iria querer o Flamengo escapando do rebaixamento? O Grêmio deveria mover céus e terras para evitar um possível título do Internacional, não o contrário.

O torcedor é sócio do clube, ou no mínimo compra produtos licenciados, que dão dinheiro e ajudam nas contas dos pobres times brasileiros. Então, se ele quer que o time perca, o time deveria considerar isso.

Esse pode não ser o ideal num mundo ético, que preza pela desportividade. Mas é assim no futebol, onde antes de qualquer coisa quem manda é a paixão. Então, se um time não aceita mala branca do outro, azar dos jogadores, pois estarão perdendo dinheiro.

E se eles não entregarem para frustrar as ambições do rival, eles estarão frustrando os desejos de quem torce por eles, vai no estádio, ajuda a pagar as contas, compra e veste a camiseta e sempre os aplaude nos momentos de dificuldade. É de se pensar, nesse mundo de pouca lealdade, que é o futebol, a entregada é quase uma maneira de mostrar lealdade para com os torcedores.

Written by Dyeison Martins

22 de novembro de 2010 at 15:29

Publicado em Futebol

A dois passos do paraíso, ou não

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Na briga, na peleia nossa de cada dia, o Grêmio, agora comandado por Renato, foi vencendo jogos, se afastando da zona do rebaixamento… e chegou aqui. Na sexta colocação, a dois pontos do quarto colocado. E com confronto direto com ele.

É assim a tabela do Grêmio agora. Um jogo de vida ou morte contra o Atlético PR (4°), uma partida perigosa, mas necessária contra o Guarani (lá em baixo na tabela) e um último duelo contra o Botafogo (5°). Sim, dos últimos três jogos, dois são confrontos diretos.

Isso é bom? É ótimo. Não só pela excitação da do jogo decisivo, que é ótimo. Uma tabela onde teu time pode tirar pontos dos adversários diretos é quase um mata-mata, é muita sorte isso poder acontecer.

Se o Grêmio vencerá eu não sei. Espero que sim. Mas ele só depende dele para conseguir o 4° lugar.

Isso se o Palmeiras ou o Goiás não vencerem a Copa Sul Americaca.

Written by Dyeison Martins

17 de novembro de 2010 at 13:06

Publicado em Grêmio

Vettel Campeão em Abu Dhabi

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Por essa poucos esperavam, mas foi o alemão Sebastian Vettel, da RBR quem foi campeão no final do ano. Com uma corrida trágica de Mark Webber e um erro monumental da Ferrari, que tirou Fernando Alonso do páreo, o alemão de 23 anos se sagrou o campeão mais jovem da história da Formula 1.

Tudo começou num sábado de novidades. Enquanto a McLaren surpreendia por ser a segunda força, Mark Webber caia num ostracismo assustador. Vettel fez a pole, com Lewis Hamilton (McLaren) em segundo, Alonso em terceiro e Jenson Button (McLaren) em quarto. Webber foi quinto. Até ai, tudo ia bem para Alonso, que fez uma volta mágica e garantiu com o terceiro posto chances de ser campeão.

Já na largada, Vettel foi para frente e Alonso perdeu uma posição para Button. Ainda na primeira volta, Michael Schumacher é tocado pelo seu companheiro Nico Rosberg (da Mercedes) e roda, sendo acertado por Vitoantônio Liuzzi (Force India). Safety Car na pista, e entram para calçar os pneus duros Rosberg e o russo Vitaly Petrov (Renault). Isso seria fundamental na carreira.

Webber, mesmo com um carro melhor, se mostra incapaz de acompanhar Alonso. Então vai para os boxes, colocar pneus duros. A Ferrari se desespera e manda Felipe Massa (que vinha atrás) para a troca, tentando bloquear Webber. Não da certo. Depois, manda Alonso para os boxes, numa cagada monumental que decidiu o campeonato. O espanhol só voltou a frente de Webber porque Jaime Alguersuari (STR) segurou Webber por algumas voltas. Mas o espanhol veio atrás de Rosberg e Petrov. E quem diz que ele consegue passar eles e voltar na frente.

Lá na frente, Vettel e Hamilton foram parar umas dez voltas depois. Button e Robert Kubica (Renalt) demoraram ainda mais, com Kubica voltando na frente do Alonso. E ai a Ferrari resolve colocar a responsabilidade em Alonso, mandando ele dar tudo de si para ultrapassar Petrov, que tinha um carro visivelmente mais rápido na reta. Ao invés de tentar mandá-lo calçar pneus macios e ir para o tudo ou nada.

No final, deu Vettel em primeiro e campeão. Hamilton e Button no pódio. Kubica, Rosberg, Petrov, Alonso, Webber, Alguersuari e Massa completaram o pódio.

Considerações Finais

Vetetl foi o campeão. Mas não considero um merecido campeão. Fez 10 poles, teve o cara mais rápido o ano inteiro, e não liderou um único premio. Webber, na hora final, amarelou.

Alonso correu e no final foi traído pela inexperiência da Ferrari, que ficou nervosa e queria que ele resolvesse sozinho na pista. Ao invés de marcar Webber, ele deveria fazer uma corrida normal, onde seria campeão naturalmente. Na última prova, faltou um carro melhor e uma direção melhor da equipe. Mesmo assim, foi um grande ano para o asturiano, que demonstrou todo seu talento.

Written by Dyeison Martins

16 de novembro de 2010 at 12:31

Publicado em Automobilismo

Uma rápida surpresa, antes da tendência

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O Grande Prêmio do Brasil geralmente é uma das etapas mais emocionantes do ano, com surpresas e viradas. Isso aconteceu nesse final de semana, mas só no sábado.

Choveu no sábado, e isso pode explicar alguma coisa. Mas o fato interessante é que se esperava um domínio da RBR, com Sebastian Vettel e Mark Webber liderando. O que aconteceu foi uma pole surpreendente e assustadora de Nico Hulkenberg, da Williams. As RBR ficaram atrás, com Lewis Hamilton (McLaren) fechando a segunda fila. O atual lider do campeonato, Fernando Alonso (Ferrari), foi quinto.

No domingo, tudo seguiu o programado. Vettel passou Hulkenberg na largada. Ainda na primeira volta Webber superou Hulkenberg, e Fernando Alonso se aproveitou do erro de Hamilton e foi para a quarta colocação.

O alemão Hulkenberg ainda mostrou que tem sim talento, conseguindo segurar Alonso por seis voltas, e exigindo uma grande ultrapassagem por fora do espanhol. Hamilton, por outro lado, não conseguiu passar até as trocas dos boxes.

E assim terminou a corrida. Vettel, Webber e Alonso no pódio.  Hamilton, Jenson Button (McLaren), Nico Rosberg (Mercedes), Michael Schumacher (Mercedes), Hulkenberg, Robert Kubica (Renault) e Kamui Kobayashi (Sauber).

Exatamente como se esperava. As RBR na frente, voando sozinhas, e o Alonso como primeiro do resto.

Considerações Finais

A RBR conquistou com essa dobradinha o Campeonato dos Construtores. Sebastian Vettel vive um excelente momento, muito superior ao de seu companheiro Mark Webber. Muito já se fala sobre jogo de equipe, no caso de uma dobradinha. Se acontecer de Vettel estar na frente, Webber em segundo e não houver mais chance para o título do alemão, nada mais justo que ele deixar seu companheiro australiano vencer.

Fernando Alonso segue líder do campeonato. A vantagem diminuiu, mas ainda é consistente. Ele só depende de si mesmo para ser campeão (no caso, com um primeiro ou segundo lugar). Felipe Massa foi a decepção do final de semana, não repetindo seus bons desempenhos de outras temporadas, onde havia conseguido três poles e duas vitórias.

Lewis Hamilton segue no campeonato vivo por aparelhos. Só uma milagre o fará campeão. Jenson Button foi finalmente excluído da disputa. Depois de um bom início, caiu muito, assim como a McLaren.

Agora, a Formula 1 corre para as Arábias, para Abu Dhabi. Sábado o treino classificatório, e a corrida decisiva no domingo. Haja coração amigo.

Written by Dyeison Martins

12 de novembro de 2010 at 15:16

Publicado em Automobilismo

Imortal

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Certos eventos foram tão marcantes para a história que com o passar do tempo, as pessoas lembrarão deles de maneira nostálgica, como “ah, eu estava lá quando o Internacional foi campeão brasileiro em cima do Corinthians”, ou “sim, estava no anel superior quando o Grêmio venceu o Peñarol e foi campeão da Libertadores”. Vejam que eu nem citei coisas como a queda do Muro de Berlim. Brega demais.

Pensando por esse aspecto, terei bastante história para contar para os meus netos quando for chegada a hora. Também poderei contar para vocês agora, sobre esse momento que ninguém que foi esquece.

Capitulo 1 – A viagem

Curiosamente, a história começa no ponto mais ideologicamente diferente possível, dos Estados Unidos para a União Soviética. No caso, essa história começa no Olímpico Monumental, no dia anterior ao show. Assisti ao jogo do Tricolor Gaúcho com alguma indiferença, até pelo jogo ter se resolvido cedo. Com uma atuação convincente, o Grêmio logo despachou o Ceará e lhe aplicou uma sonora goleada.

Logo depois xis com o pessoal do jogo. Não me senti muito bem, preferi dispensar o xis. Sintomas de febre, ainda por cima. Mas tudo bem, não ta morto quem peleia.

Esperei o onibus para ir para o “outro lado”. Ele não veio. Era quase onze horas, eu estava sozinho numa parada de onibus da Azenha, tinha fumado uns dois cigarros e nada de onibus. Um taxi parou na minha frente, no sinal fechado.

Ok, entendi a mensagem Destino. Peguei o Taxi.

Capítulo 2 – Anoiteceu em Porto Alegre

O plano original (ou algo que podemos chamar assim, pois nunca houve sequer parecido com um plano) era passar a noite na fila. Sozinho, no frio, sem nada alem de uma camiseta flanela xadrês como companhia.

A realidade felizmente foi beem diferente.

Ainda no jogo do Grêmio uma amiga minha me ligou dizendo que iria no show e já estava na fila. Pediu para eu ir lá com ela.

Então, ainda sentado no chão, usando uma camisa xadrês para espantar o frio, escorado na Fortaleza Inimiga (leia-se, o Beira Rio), pelo menos tive alguma companhia.

Curioso detalhe que os carros que passavam na Padre Cacique tinham o costume de buzinar para nós na fila. Talvez como maneira de mostrar solidariedade. Um até cantou Imagine, do John Lennon, provavelmente confundindo quem iria cantar. Um gritou para nós irmos “trabalhar”. Solidarizo-me de um cidadão que estava voltando o serviço as quatro da manhã do domingo.

Ok, não foi como eu imaginava, um “pistoleiro solitário” sozinho numa terra amaldiçoada… Mas foi divertido. Até puxei uma briga, atirando o meu casaco na cara de um guri que estava há horas reclamando de frio. Ele sabiamente preferiu se cobrir com o casaco e agradecer. Sorte dele…

Capítulo 3 – A dois passos do paraíso

Chegou a manhã. Com ela, veio o calor e as pessoas. Muito calor e muitas pessoas. Ainda assim o cansaço estava começando a bater. Ainda haveria um dia inteiro pela frente, um dia longo. O tempo é teimosamente mais devagar quando ele deve passar rápido.

Ainda de manhã Eles (os organizadores) resolveram começar a formar as filas. Isso foi bom por um lado, pois dava a quem chegou cedo a chance de já reservar seu bom lugar. Ainda assim, isso significava que todos nós iriamos para debaixo do Sol, torrar até ele ficar encoberto pela sombra da Fortaleza.

Nesse ponto, quase uma da tarde, resolvi ir almoçar. Pizza de queijo. Era a primeira comida que eu colocava no estomago desde… o almoço de sábado.  Mas ainda assim, forte nos meus ideais.

Num evento inédito, escutei o GP do Brasil no rádio. Foi muito comentado até minha cara de sofrimento, imaginando as ultrapassagens e tempos. Terminou como era previsto, e a decisão ficou para Abu Dhabi. Haja coração, amigos da Rede Globo.

Uma pequena confusão com uma ambulâcia (ainda não entendi o que aconteceu). Depois de mais um tempo, portões abertos, a fila começa a andar. Revista, abre mochila, passa cartão, a roleta te comprimenta.

Entramos.

Agora eu sei como Ulisses se sentiu quando, depois de dez anos de cerco, finalmente penetrou as muralhas de Tróia.

Capítulo 4 – Atras das linhas inimigas

Entrei no Beira Rio, andei pelo gramado e mijei no banheiro químico. Uma parte minha preferiria mijar no gramado e depois queimar o banheiro químico. Mas, não desejando atrazar o show, preferi usar de civilidade. Fiquei colado na grade que dividia o Gramado Pobre do Gramado Rico, mais perto do palco. Obviamente do lado pobre.

Expremido entre uma cerca e uma turba de pessoas, sem poder sentar, com as pernas já cansadas, sem comer há horas. Para ajudar, a produção colocou uns dances para tocar. Mesmo assim, resistimos, sabendo que dias melhores viriam. No caso, caiu a noite, e o horário se aproximava.

Começou a tocar umas músicas estranhas. Os telões laterais mostravam uma série de imagens. Estava próximo, muito próximo. A maioria das pessoas mal conseguiam respirar. Exatamente 21h e 10 minutos, ele entrou no palco.

Capítulo 5 – Hard Days Night

Foi exatamente como no filme. Um pedaço da memória racial humana ainda guarda muito bem informações como essas. É bem simples, você vê um rato ou uma barata, você tenta matá-la, você vê uma cobra e recua. E se você vê um Beatle, você grita como uma adolescente histérica. Independente de já ter quarenta anos e barba cerrada.

O show foi lendário demais para que alguém esqueça. A produtora disse que “foi o maior show da história de Porto Alegre”. Como não fui em todos, não posso afirmar, mas provavelmente chega perto.

Sir James Paul McCartney é um imortal, um gigante dentro do palco. Cada fala, cada gesto, cada piada, todas atingem ao público em cheio. É um verdadeiro rei, sua majestade é incontestável. Mesmo no alto de quase 70 anos (expectativa de vida mínima de 200), ele toca por três horas sem pausas e sem sequer beber uma agua, como que debochando de nós meros mortais. E quando Sua Majestade fala “mas bah tchê”, nem preciso dizer.

Dispondo do acervo de sua excelente carreira solo, combinada com o repertório inigualável dos Beatles, ele atira cada música na cara de seus fãs. Como uma missa, apenas os primeiros acordes são necessários para reconhecer a passagem.

Dentre todas as músicas que cantamos juntos, umas se sobressaíram. Something, com fotos de George Harrison no telão foi emocionante. Let it be, uma das minhas preferias dos Beatles. Live and let die, com os fogos e a emoção. E Hey Jude, pelo “nananananana” com todo o Beira Rio junto.

Pode parecer pouco, mas não é realmente necessário falar mais. Quem viu, se lembrará.

Capítulo 6 – Lá, e de volta outra vez

As pernas doiam, tinha sede, fome e um sono como numa havia sentido antes. Depois do show fomos aos poucos relembrando de nossa humanidade, de nosso corpo meramente mortal. Ainda planejava sair, mas minhas forças já estavam debilitadas. E o fedor também não ajudaria muito na balada.

Entre andar pela multidão, pegar onibus pro centro, ir para a Cidade Baixa (com uma lotação absurda), esperar horas para comer um xis, destaco meu momento indigente, ao dormir na praça da Estação Mercado. Sim, no chão mesmo. Todo mundo faz isso eventualmente, só que dessa vez não estava bêbado.

Durante todo esse tempo, nada falei sobre o show. Nada havia para ser dito. Entre todos, ainda restava aquele silêncio do choque.

A vida segue em frente, mas acho que um pedaço de nós ficou naquele 7 de novembro. E uma parte daquele dia ficará conosco até o fim.


Written by Dyeison Martins

11 de novembro de 2010 at 14:52

Publicado em Música